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Quase por acaso, em 1970, após participar de improviso de um teste de elenco, Stepan Nercessian iniciou sua carreira como ator, no filme ‘Marcelo Zona Sul’, fazendo o papel principal ainda menor de idade. Um ano depois, já havia sido contratado pela TV Globo. Na emissora, atuou em mais de 20 novelas. Foi protagonista, por exemplo, em ‘Feijão Maravilha’, em 1979, como o trambiqueiro Anselmo, na novela que fazia referências às chanchadas. O ator também integrou o elenco de diversas minisséries, entre as quais ‘O Sorriso do Lagarto’ (1991) e ‘Tereza Batista’ (1992), e manteve uma atuação constante no cinema, em filmes como ‘Xica da Silva’ (1976), ‘Memórias Póstumas’ (2001) e ‘Chega de Saudade’ (2008). 


O ator Stepan Nercessian nasceu em Cristalina, município de Goiás, no dia 2 de dezembro de 1953. É um dos sete filhos de Luiza Nercessian e Karabet Nercessian, armênio que ficou órfão em função do genocídio de seu povo e teve de fugir de seu país. Stepan cresceu em contato com a natureza, fascinado pelos redemoinhos que via no campo, sem prestar atenção na TV, cuja imagem estava sempre repleta de chuviscos. 


Sua adolescência, no entanto, foi dividida entre a cidade grande – o Rio de Janeiro – e Goiás. Participante do movimento estudantil e filiado ao Partido Comunista Brasileiro no final dos anos 1960, época em que a ditadura militar era especialmente violenta, ele viajava com frequência para o Rio com o objetivo de se proteger. Como chegou a ser acusado de ter feito um curso de terrorismo internacional na Coreia, acabou sendo obrigado a parar de estudar cedo, sem completar o ensino médio. 


Sua vida profissional começou longe dos palcos, em um jornal de Goiás. A irmã mais velha, Armênia Nercessian, havia sido presa pelos militares e estava desaparecida. Um jornalista vizinho de Stepan o levou para conversar com o dono do jornal Cinco de Março, um semanário combativo, para que a notícia da prisão aparecesse e a família conseguisse informações. Nessa conversa, Stepan ganhou um emprego, primeiro fazendo serviços gerais, depois trabalhando como auxiliar de revisor e, em seguida, como revisor. “Na redação, convivia com as melhores cabeças, os jornalistas. [...] Aquilo compensou toda a falta de escola tradicional, acadêmica, que eu acabei abandonando”, avalia. 




Estreia como ator


No Rio de Janeiro, um amigo carioca o chamou para acompanhá-lo em um teste para o filme ‘Marcelo Zona Sul’. De brincadeira e improviso, Stepan foi chamado a participar da seleção. Não tinha motivo para levar a sério, afinal, no roteiro, o personagem principal era apresentado como um surfista bronzeado, com cabelo parafinado; bem diferente de um goiano magro com sotaque do interior. Mas, depois de mais de 200 testes, a produção chegou à conclusão de que Stepan seria a melhor escolha, e ele foi o protagonista sem jamais ter atuado antes. Para sua surpresa, o filme em preto e branco de Xavier de Oliveira, lançado em 1970, fez sucesso. 


O ator e diretor Reginaldo Faria assistiu a ‘Marcelo Zona Sul’ e convidou Stepan a participar de um filme que ele dirigiria em seguida e que teve o roteiro reescrito, especialmente para incluir o ator. ‘Pra Quem Fica, Tchau’ (1971) contava a história de um adolescente que vem do interior para a cidade grande e passa a ter um caso com uma mulher casada. Os dois trabalhos foram o passaporte de Stepan para o início da carreira em novelas, contratado pela TV Globo. Em ‘Bandeira 2’ (1971), de Dias Gomes, ele interpretou Márcio, filho do bicheiro Jovelino Sabonete (Felipe Carone). Na trama, o rapaz se se apaixonava pela filha de um bicheiro inimigo. 


A novela seguinte, na emissora, foi ‘Duas Vidas’ (1976), de Janete Clair, em que interpretou Maurício, noivo de Juliana (Christiane Torloni) que era apaixonado por Sônia (Isabel Ribeiro), que era mais madura e independente. A censura não queria a manutenção do namoro entre um homem jovem e uma mulher mais velha, previsto na trama, então Stepan sugeriu à autora que casasse os dois, de modo a atender ao critério de moralidade da época. Deu certo. 

“Aconteceu uma coisa muito legal que a própria Janete Clair me telefonou e falou: 'Ah, eu estou muito triste, a censura vai acabar com o nosso romance do Maurício e da Sonia'. Eu falei: 'Pô, Janete, casa nós dois'. [...] Aí foi lindo, fizemos cenas do casamento e tal, passamos um pouco a perna, ludibriamos um pouco a censura nessa ocasião. E aí a novela foi um sucesso até o fim".


Protagonista


Como protagonista, o ator fez ‘Feijão Maravilha’ (1979), de Bráulio Pedroso, novela que tinha as chanchadas como referência. Vivendo as aventuras de Anselmo, um trambiqueiro, Stepan integrou um grande elenco, com nomes já consagrados, como Lucélia Santos, Grande Otelo e José Lewgoy. 


Nos anos 1980, entre os trabalhos de que participou, destaca-se uma novela de muito sucesso, ´Vale Tudo’ (1988), de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Interpretando um motorista, ele criou, quase por acaso, um bordão que ficou popular: “Superior”. A ideia surgiu quando Stepan acordou uma pessoa na porta de um bar onde seria feita a gravação de uma cena. “Dei uma acordada nele, ele abriu o olho, olhou para mim e falou: ‘Pô, Superior, é você, Superior?’, aí me deu um abraço e já tomamos uma cerveja ali. [...] Quando eu entrei em cena, lembrei dele e falei: ‘Ô, Superior, vê uma cerveja para mim’. Aí comecei a chamar todo mundo na novela de Superior, e esse negócio pegou pra caramba”, conta.  


Durante a década de 1990, o ator teve participações em várias minisséries. Foi Chico Bagre, em ‘O Sorriso do Lagarto’ (1991), de Walther Negrão e Geraldo Carneiro, inspirada em obra homônima de João Ubaldo Ribeiro; Almério, em ‘Tereza Batista’ (1992), de Vicente Sesso, adaptação de romance de Jorge Amado; Caramuru, em ‘Anos Rebeldes’ (1992), de Gilberto Braga; e “Goiano”, em ‘Hilda Furacão’ (1998), de Gloria Perez, que adaptou o romance homônimo de Roberto Drummond. Em ‘O Sorriso do Lagarto’, Stepan substituiu um ator que havia morrido durante as gravações, Chiquinho Brandão, e em ‘Anos Rebeldes’ participou de uma cena marcante, em que Heloísa, uma militante vivida por Claudia Abreu, é morta durante a ditadura. “Eu fazia um personagem pequeno nessa série, mas era muito marcante para todo mundo. A gente tinha consciência do quanto era importante estar revelando e contando essa história”, afirma. 


Chacrinha


Quando o ator estava no final do mandato de deputado e gravando o seriado ‘Magnífica 70’, que estreou na HBO em abril de 2015, recebeu um convite do amigo Andrucha Waddington para fazer ‘Chacrinha, o Musical’, escrito por Pedro Bial e Rodrigo Nogueira e dirigido por Andrucha. De início a proposta pareceu estranha, mas o personagem foi sendo incorporado por Stepan, até que se chegasse ao resultado esperado. “Fomos fazendo até que um dia eu pedi os óculos dele, as fichas, o boné e, quando vesti, quando a gente botou aquele negócio, eu tomei um susto e falei: ‘Cara, nem eu me reconheci mais’”, relembra.  

O musical foi um grande êxito de público e acabou dando origem a outras produções em que Stepan interpretou o famoso apresentador. Em 2017, quando o Velho Guerreiro completaria 100 anos, o Canal VIVA, a TV Globo e o Globoplay exibiram o especial ‘Chacrinha: o Eterno Guerreiro’, que teve como jurados nomes famosos da TV, como Luciano Huck, Angélica e Ana Maria Braga, além de contar com a participação de Roberto Carlos e Ivete Sangalo. Em 2018, estreou o filme ‘Chacrinha: o Velho Guerreiro’, dirigido por Andrucha Waddington. Pela atuação, Stepan Nercessian foi escolhido como melhor ator no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, realizado no Theatro Municipal de São Paulo. O filme, por sua vez, deu origem à ‘Chacrinha - A Minissérie’, também dirigida por Andrucha Waddington. A história do protagonista foi contada em quatro episódios, em janeiro de 2020, na Globo.


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